quinta-feira, 1 de setembro de 2011

“Mais Infinito”: ineditismo com uma proposta de “desautoria”







Costumo dizer que o artista para se profissionalizar, na maioria das vezes, passa por três fases: a primeira é quando ainda é um iniciante, pois é desprovido de vaidades e estrelismos; a segunda é quando torna-se consagrado, aí torna-se também um chato, até insuportável de se relacionar; a terceira fase é quando passa pela segunda fase e amadurece, voltando assim a primeira fase, ou seja, voltando a ser desprovido de vaidade e estrelismos. Não sei se os autores aqui em questão passaram por essas três fases, mas posso afirmar que publicar um livro assim, com um ineditismo da poesia dasautoral, despidos de qualquer vaidade e sem assinar um poema sequer, deixando ao leitor, descobrir por si só quem é quem, ou até mesmo dando parceria aos outros autores do livro, é para se tirar o chapéu.
Antes de tudo, “Mais Infinito” (Casa do tempo) dos poetas Rodrigo Lodi, Márcio Sampaio, Marcos Pedroso e João Paulo Gonçalves da Costa é um livro de poesia da mais alta qualidade do que podemos chamar de verdadeiramente poesia. Os poemas aqui contidos são, na maioria, intimistas e seus versos falam por si só. Aqui os poetas se doam, mesmo com a sua poesia pessoal. Vejamos então, já que são quatro poetas, quatro poemas para que possamos nos deliciarmos com uma poesia que mexe na alma do leitor:

FUGA EM DÓ MAIOR

Lembro-me bem de você
enquanto se afastava
pelo meio da rua
arrastando a minha asa
que já não cabia nos seus olhos,
você dobrava a esquina
procurando a ilha,
não a presa,
no horizonte
interminável
dessa noite


INSÔNIA

Solidão é verbo,
Colisão.
Corpo versus guardanapo.

LEMBRANÇA

Ela telefonou
por volta da meia noite.
Esquecera de avisar
viajaria no dia seguinte.

Antes de despedir
disse ser boa a lua cheia
daquele mês – abril, talvez maio.

Por via das dúvidas ele deixou
um copo d`água perto da cama.

Para que tentar entender tudo.

ESPERA

bebi tua sede.
represa.

Pouco
te aguardo.

A não assinatura individual de cada poema faz com que o mesmo seja a estrela maior da obra, mais até do que o autor e convenhamos, poetas sem vaidade de receber elogios pela sua obra individualmente, é realmente uma coisa inédita na história da nossa poesia. A sensibilidade individual neste “Mais Infinito” é antes de tudo, humanamente poética: “Sob os olhos cada\vez mais perto – as\formigas não se cansam\de ir e vir\em fileiras compridas\do tamanho do tronco caído\na terra e continuam\alheias – às brancas sobrancelhas\e às nuvens escuras\que depressa se aproximam.” Alguns poemas nos lembram versos chicobuarqueanos numa linguagem da fresta: “Ali no jardim\as pessoas se reuniam em pequenos grupos\e conversavam tão baixinho que parecia\ter alguém fazendo difícil prova\dentro de casa.” A ausência biográfica talvez seja intencional, para que nós, leitores, possamos identificar (quem sabe) o autor de cada verso – ou será que foram mesmo escritos a oito mãos?
“Mais Infinito” é um livro de poesia e das melhores, um livro que com certeza pela simplicidade de seus versos, agradará ao leitor, desde o crítico (se é que existem críticos, já que ninguém é dono da verdade absoluta para afirmar o que é e o que não é...) mais exigente, ao leitor que pouco lê poesia.
Nesse comentário de simples leitor de poesia, posso afirmar li, reli e gostei de “Mais Infinito”, que na minha humilde opinião, é um dos dez melhores livros de poemas publicados em 2011.
João Paulo Gonçalves da Costa é autor dos livros "Cara e Coroa" e "A Lua entrando em Aquário". Foi um dos fundadores do Grupo PTYX de Arte e Literatura. Também participou, ao lado de Murilo Rubião e Márcio Sampaio, da criação do jornal Suplemento Literário. Por inúmeras vezes seus poemas ganharam publicações em jornais e revistas.
Marcio Sampaio é pintor, curador e crítico de arte. Foi professor da Escola de Belas Artes da UFMG, e tem vários livros publicados de poesia, ficção pra crianças e ensaios de artes plásticas, com alguns prêmios e distinções nessas áreas de atuação. Também participou do Grupo PTYX de Arte e Literatura. Sua obra está registrada no livro “Declaração de Bens”, editada em 2010.
Marcos Pedroso escreveu os livros “Recorte dos Olhos”, “Estivais” e “Acabou”. Os dois últimos foram publicados na Inglaterra, Alemanha e Suíça. Colaborou com poemas e artigos diversos em jornais do país e exterior, com destaque para o “The American Poetry Journal”, dos Estados Unidos.
Rodrigo Lodi segundo ele mesmo é “Poeta sem currículo, sem sentido ou direção. De poucas palavras, somente o rangido das asas e a vontade de azul. Não sou Pessoa, sou gente. Escrevo porque o peito foge. E a palavra fica.”
“Mais Infinito” tem projeto gráfico da capa de Conrado Esteves, sobre foto de Rodrigo Lodi; projeto gráfico de miolo e editoração eletrônica a cargo de Conrado Esteves e revisão de Cristina Esteves.
Contatos poderão ser feitos através de Rodrigo Zavagli: livromaisinfinito@gmail.com ou pelo telefone: (31) 8489.7839.

5 comentários:

  1. Salve...Salve Poeta.
    Critica muito boa.
    Abraços poéticos.

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  2. Fantástico! Parabéns ao quarteto libertário!
    Sou adepto da mesma ideia, viste e crie em conjunto no http://inscricaopoetica.wikispaces.com/

    beijares poéticos
    marcoliva

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  3. VIII CONCURSO PLÍNIO MOTA DE POESIAS 2011 (MACHADO-MG). FALEM COMIGO!

    A ACADEMIA MACHADENSE DE LETRAS (Machado-MG) comunica que estão
    abertas as inscrições para o VIII Concurso Plínio Motta de Poesias, do
    ano 2011.
    Entrem em contato para adquirir o Regulamento:
    a/c Carlos Roberto machadocultural@gmail.com
    ESTE CONCURSO ESTÁ ABERTO PARA TODOS!

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  4. “ENCONTRO COM A ACADEMIA”

    A Academia Machadense de Letras realizará durante suas reuniões, o “Encontro com a Academia”.
    Este acontecimento tem como objetivo, a interação e divulgação das manifestações culturais, através de debates com membros da nossa cidade e região.

    Contatos:
    Carlos Roberto de Souza
    machadocultural@gmail.com
    (35) 3295-6106
    (35) 8833-9255
    Bog da Academia: http://academiamachadense.blogspot.com.br/



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  5. Roubei palavras de um livro, mas elas fugiram de mim. Questionamentos invadiram minha mente exclamativa.
    Fechei o livro o mais depressa que pude na esperança de detê-las... só me restaram as incoerências.

    (Agamenon Troyan)
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